O grito silencioso dos jumentos

Patrimônio do Nordeste pede socorro em Brasília

Foto: Reprodução

O debate que chega ao Congresso Nacional no próximo 14 de maio, na Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados, vai muito além de uma discussão técnica. Trata-se de um alerta urgente sobre o risco de desaparecimento de um símbolo histórico, econômico e cultural do Nordeste brasileiro: o jumento.

O PL 2387/2022, que propõe o fim do abate desses animais, virou linha divisória entre a preservação e o colapso de uma espécie que ajudou a construir o sertão. Hoje parado na CCJ, o projeto precisa sair da gaveta.

Queda alarmante e risco real

Os números são devastadores. Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), do IBGE e do Agrostat apontam uma redução de 94% da população de jumentos no Brasil entre 1996 e 2024. Não é um declínio natural, é resultado direto da exploração comercial descontrolada.

A demanda internacional, especialmente da China, gira em torno de 5,9 milhões de peles por ano, podendo chegar a 6,8 milhões até 2027, segundo a The Donkey Sanctuary. O destino é a produção do ejiao, produto sem comprovação científica robusta, mas altamente lucrativo.

Do transporte ao abandono: uma história de ingratidão

Imagem clássica de um jumento (ou jegue) transportando água no sertão nordestino, em barricas que , simboliza a resistência e a adaptação à seca. É uma cena típica do cotidiano rural, focada no transporte de água do açude ou cacimba para casa. Ilustração: Edgar Lisboa, com recursos de IA

Durante décadas, o jumento foi mais do que um animal de carga. Foi parceiro de sobrevivência no semiárido.

No sertão, ele carregou água, alimentos, lenha e até esperança. Em regiões onde o Estado não chegava, o jumento era o elo entre o isolamento e a sobrevivência.

Hoje, com a mecanização e o abandono de políticas públicas para o campo, muitos desses animais passaram de essenciais a descartáveis, abrindo espaço para sua captura e abate em larga escala.

Depoimentos que traduzem a realidade

Produtores rurais do Nordeste relatam uma mudança dramática.

“Sem o jumento, muita gente aqui não teria sobrevivido à seca. Hoje, ver esses animais sendo levados para abate é como ver parte da nossa história indo embora”, relata um agricultor do interior do Ceará.

Pesquisadores também alertam. Especialistas classificam o cenário como uma “tragédia dos comuns”, quando um recurso é explorado até o esgotamento por falta de regulação.

A própria The Donkey Sanctuary tem denunciado que o Brasil virou rota de abastecimento de uma cadeia global sem controle sanitário e sem rastreabilidade.

Impactos além do bem-estar animal

O problema não é apenas ético.

  • Sanitário: ausência de controle adequado no transporte e abate
  • Ambiental: risco de desaparecimento da espécie em determinadas regiões
  • Social: impacto direto em comunidades rurais que ainda dependem do animal

Sem regras claras, o Brasil corre o risco de repetir erros já vistos em outros países, onde populações de jumentos praticamente desapareceram.

Congresso precisa agir

Deputado Célio Studart, autor da proposta da audiência Pública, em defesa dos jumentos.

A audiência pública proposta pelo deputado Célio Studart (PSD/CE) é um passo importante, mas insuficiente se não houver decisão política.

O Congresso Nacional precisa escolher:
ou regula com rigor essa cadeia, ou assiste passivamente ao desaparecimento de um patrimônio vivo.

Atraso legislativo custa caro

Não há mais espaço para omissão.

O Brasil já perdeu 94% de sua população de jumentos. Esperar mais significa institucionalizar o desaparecimento.

O PL 2387/2022 não é apenas uma pauta ambiental,  é uma questão de soberania, cultura e responsabilidade social.

Ignorar isso é permitir que um símbolo do Nordeste seja reduzido a matéria-prima de exportação.

E o país que não protege sua própria história dificilmente conseguirá preservar seu futuro.

Conexão Digital Brasília/*Com informações do Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa