
A jornada de trabalho deixa o Congresso e entra definitivamente na campanha presidencial. A discussão sobre a aprovação do fim da escala 6×1 volta ao Senado em um momento politicamente sensível: depois do primeiro turno das eleições presidenciais, com Lula e Flávio Bolsonaro disputando o eleitorado para o segundo turno, a PEC 221/2019, em discussão no plenário, que reduz a jornada de 44 para 40 horas semanais, estabelece dois dias de repouso remunerado e mantém os salários. Para ser aprovada, precisa de 49 votos, em dois turnos. A pauta, portanto, passou a ter dois endereços: o Senado e a campanha eleitoral. E a diferença de discurso entre os dois candidatos é clara.
Direito social e bandeira eleitoral
Para Lula, o fim da 6×1 representa uma atualização das relações de trabalho e uma bandeira de forte apelo junto ao eleitor que vive a rotina de seis dias trabalhados para apenas um de descanso. O presidente passou a cobrar publicamente que Flávio Bolsonaro declare seu voto e oriente a bancada do PL a apoiar a proposta.
A estratégia coloca a discussão no terreno da qualidade de vida do trabalhador. A PEC assegura dois dias de descanso sem redução salarial, permitindo apresentar a mudança como ganho de tempo sem perda de renda. Depois do primeiro turno, a questão deixou de ser apenas trabalhista e passou a funcionar também como instrumento de diferenciação entre os projetos em disputa.
Liberdade de escolha e preocupação com custos
Flávio Bolsonaro procura deslocar a discussão para outro eixo. Em vez de uma redução constitucional e uniforme da jornada, defende uma alternativa associada à PEC 12, apresentada pelo senador Rogério Marinho. O modelo permite contratos por hora, com remuneração e direitos proporcionais ao tempo trabalhado.
O argumento é o da liberdade de escolha entre empregado e empregador. Flávio também critica a votação durante o período eleitoral e defende que o tema seja apreciado depois da eleição.
A diferença é importante: Lula fala em estabelecer um novo padrão de jornada; Flávio, em flexibilizar a relação entre tempo trabalhado e remuneração.
Trabalhador ganha tempo; empresário calcula a conta
Para quem trabalha na escala 6×1, dois dias de descanso significam mais tempo para família, lazer, estudo e recuperação. Para o empresário, porém, reduzir horas mantendo salários pode elevar o custo relativo da mão de obra, caso não haja compensação por produtividade.
Empresas que funcionam sete dias por semana terão de reorganizar escalas e, em alguns casos, contratar mais trabalhadores. No Rio Grande do Sul, a FIERGS afirma que 66,9% dos vínculos formais têm jornadas superiores a 40 horas semanais — cerca de 2,1 milhões de empregos. Na indústria de transformação, o índice chega a 92,4%.
A entidade estima que a redução para 40 horas poderia provocar queda de 5,4% no PIB gaúcho e afetar potencialmente 47,2 mil postos formais. São projeções da Federação, inseridas em um debate econômico que também reúne avaliações divergentes sobre produtividade, emprego e crescimento.
O impacto para o Rio Grande do Sul
No Estado, os efeitos tendem a variar conforme o setor. A indústria, especialmente a que opera em turnos contínuos, poderá precisar reorganizar equipes. Comércio, restaurantes, hotéis, transporte e serviços também terão de adaptar escalas.
Por outro lado, mais tempo livre pode estimular consumo, lazer e serviços, além de melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores. A FIERGS defende que produtividade, competitividade e preservação de empregos sejam consideradas na decisão.
A aprovação da PEC, portanto, não significará apenas uma mudança na folha de ponto. Ela poderá alterar custos, escalas, relações trabalhistas e a própria organização da vida de milhões de brasileiros.
Uma votação que ganhou dimensão presidencial
A escala 6×1 chega ao segundo turno como mais do que uma pauta trabalhista. Para Lula, representa uma agenda social baseada na redução da jornada sem perda salarial. Para Flávio, abre espaço para defender flexibilidade, liberdade de negociação e questionar o momento político da votação.
No Rio Grande do Sul, a pergunta é também econômica: como reduzir a jornada sem transformar o aumento do tempo livre em perda de competitividade, aumento de custos ou redução de empregos? A resposta dependerá não apenas do texto aprovado, mas da capacidade de cada setor de reorganizar sua produção e absorver a transição.
Edgar Lisboa/Portal Repórter Brasília/Jornal do Comércio







