
O azul some do céu. Trovejam os anjos maus. Cascatas escorrem destemidas, chorando tristezas e alegrias por todos os cantos.
Não há abrigo para os inocentes passantes que se amontoam sob as marquises. Sombrinhas viradas ao avesso, outras voando com o vento. Sinaleiros apagados, galhos de árvores no chão. Uns correm, outros esperam…
Poderia ser o fim do mundo, mas é apenas o caos causado por um temporal, no Centro de Curitiba.
Presenciei alguns, ao longo de mais de meio século, nos quais estive envolvida de corpo e alma. Mas a memória me traz uma imagem antiga, de quando eu tinha uns vinte e poucos anos. Era verão, chovia copiosamente e, de dentro do meu carro, vi um casal abraçado, escondendo-se da água com uma pasta de colégio sobre as cabeças. Lembro-me do semblante feliz e despreocupado deles como se fosse hoje e, sinceramente, desejei ser a moça com o namorado sem guarda-chuva.
Sempre observei casais aconchegados, protegendo-se de temporais na rua e, não sei por quê, isso aquece o meu coração.
Quando o espírito está pronto, a gente se molha sem medo.
Nos tempos de criança, ao primeiro sinal das gotas graúdas estalando na calçada, corríamos para fora. Roupas encharcadas, cabelos escorridos pelos ombros sem culpa alguma, pés marrons nas poças do gramado: os sentidos alertas permitiam-nos a delícia de ser feliz na simplicidade. E ninguém ficava doente no dia seguinte.
Às vezes, ainda me permito banhos de chuva no jardim de casa. Os muros são altos, ninguém vê. Deixo que a água leve embora os desassossegos, como fazia na infância. Sou batizada. Ressuscito minhas coragens.
Em sintonia silenciosa com o passado, nem percebo, que por trás da cortina, uma das filhas me filma. Em câmera lenta, consigo ver minha essência. Intacta, além do tempo.
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