A tarde é nossa

Maria do Rocio Vaz/Divulgação

Quinze horas. O sol doura. Nós duas coramos. Andar pela grama, arrancar trevos, brincar com flor de assoprar sempre fizeram parte de mim. Gosto de acompanhar a lida na terra, trocar as mudas da estação e deixá-las trazer novo esplendor à casa.

Hoje, o jardineiro não apareceu. Vamos brincar de jardinar. Eu não ouso reclamar do calor. Nem do trabalho. Estou livre. Alguém já pensou em como isso é bom? Estar na própria casa, na própria cama, comer o que quiser… ser, estar, pensar o que quiser…

Passamos na floricultura e trouxemos tudo que nossos olhos cobiçaram para a nossa selva ficar mais harmônica, além de fertilizantes, substrato, vasos e fungicidas.

Uma delas é a Aglaonema — uma planta de folhas verdes com rosa, muito usada em interiores por ser resistente e bonita. Outra, diferente, possui folhas decorativas que fecham a noite: a calatéia-ornata, que é reconhecida pelas folhas verde-escuras com listras finas rosadas e pelo verso arroxeado.

A minha filha mais nova, que já colecionou joaninhas e inventou perfumes com o primo, hoje é mestra em genética. Orgulho à parte, confio inteiramente nela: sábia e curiosa. Vejo-a, delicada, poupando um bicho cabeludo de morrer afogado.

Apostamos na vida: Iniciamos os trabalhos tratando as orquídeas, lavando suas folhas e trocando o substrato. O amor perdura e dá trabalho. Mas vale a pena. Texturas, cachepôs e tons diferentes vão mudando a nossa paisagem.

Semeamos girassóis por toda parte. Trocamos o vaso do lírio-da-paz por um maior. E o levamos para dentro. Um bem-te-vi decidido diz algo, mas não estou para cantadas.

Na noite passada, um gambá esteve aqui, deixando uma bagunça desaforada. Ninguém veio buscá-lo. Continua fugitivo. Lavamos a calçada numa brincadeira de mãe e filha há muito esquecida.

Minhas havaianas são douradas, com glitter. As dela, de princesa: Cinderela. Sentíamos a pele queimar.

– Vamos?
– Vamos.

Mangueira pelos ares. Molhamo-nos inteiras, dos cabelos aos pés. Somos parte do instante. Cúmplices. Faces avermelhadas, de quem fez o que queria.

Enquanto a água escorria, deixávamos tudo para trás.

Talvez ela não soubesse tanto de mim. Talvez eu não soubesse tanto dela.

É dessas coisas que a vida prepara para ocasiões especiais – e a gente leva para sempre.

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