Agro e Petróleo brasileiro ganham espaço no mercado internacional

Agro e petróleo colocam o Brasil diante de uma oportunidade rara, mas o País ainda precisa provar que sabe transformar força produtiva em desenvolvimento

Ubiratan Sanderson (Crédito- Zeca Ribeiro, Câmara dos Deputados)

O Brasil chega a 2026 diante de uma combinação pouco comum e altamente estratégica. De um lado, o agronegócio mantém sua força, mesmo depois de um ano histórico. De outro, o petróleo brasileiro ganha espaço no mercado internacional em meio às tensões geopolíticas no Oriente Médio. São dois movimentos distintos, mas convergentes: o País se consolida, cada vez mais, como fornecedor global de alimentos e energia. O desafio, mais uma vez, não está apenas em produzir muito. Está em saber o que fazer com essa vantagem.

Uma chance rara

Na avaliação do deputado federal Ubiratan Sanderson (PL-RS), o momento é singular e exige visão estratégica. Para ele, o Brasil vive uma oportunidade rara ao reunir, ao mesmo tempo, um agronegócio altamente competitivo e um petróleo valorizado por um cenário externo marcado por instabilidade. Sanderson enxerga o País, hoje, entre os principais pilares da segurança alimentar e energética do mundo — uma posição que poucos conseguem ocupar simultaneamente.

Mas o deputado faz um alerta pertinente: conquistas como essa não se sustentam sozinhas. O Brasil, recorda ele, já viveu outros ciclos favoráveis e, em muitos deles, limitou-se a exportar matéria-prima, sem converter riqueza em desenvolvimento consistente, industrialização, valor agregado e empregos qualificados. É justamente esse risco que volta ao centro do debate. O País cresce, exporta, bate recordes, mas continua preso a uma velha armadilha: produzir muito e transformar pouco.

Transformar força em estratégia

A diferença, desta vez, é que já não basta comemorar os números. O bom momento do agro e da energia só terá efeito duradouro se for convertido em estratégia nacional. Sem planejamento, infraestrutura, segurança jurídica e ambiente de negócios estável, o Brasil continuará grande na produção e pequeno na transformação interna da sua própria riqueza.

Sanderson toca exatamente nesse ponto ao defender que o País avance na agroindústria, fortaleça a cadeia de proteínas, expanda o refino e a petroquímica, reduza a burocracia e ofereça previsibilidade para quem investe. Não se trata apenas de um discurso voltado ao mercado. Trata-se de uma visão de país. Uma visão que entende que defender agronegócio, indústria e comércio é defender produção, emprego, renda e prosperidade real.

Frango e suíno puxam a nova expansão

Os dados do setor de carnes mostram que essa oportunidade não é abstrata. A estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento aponta que o Brasil deverá produzir 33,38 milhões de toneladas de carnes em 2026. Embora o volume total fique praticamente estável em relação ao ano anterior, com leve recuo de 0,1%, o comportamento interno do setor revela mudanças importantes.

Quem puxa a nova fase de expansão são as carnes de frango e suína. A produção de carne suína deve crescer cerca de 4%, atingindo um rebanho histórico superior a 45 milhões de cabeças. As exportações devem avançar mais de 6%, impulsionadas pela abertura de mercados e pela maior procura internacional. No caso do frango, o cenário é ainda mais favorável: a produção deve superar 16 milhões de toneladas, em novo recorde, com crescimento estimado de 2,4% e avanço de 3,6% nas exportações.

Vantagem sanitária e confiança externa

O Brasil entra nessa disputa com uma vantagem decisiva. Enquanto concorrentes relevantes enfrentam dificuldades sanitárias e prejuízos provocados pela gripe aviária, o País permanece praticamente livre de grandes surtos. Isso amplia a confiança dos compradores, fortalece a imagem do produto brasileiro e ajuda a consolidar espaço no comércio global de proteínas.

A carne bovina desacelera

Na bovinocultura, o cenário é menos expansivo, embora ainda robusto. Depois de anos de crescimento forte, o setor começa a entrar em fase de ajuste. A produção deve cair 5,3% em 2026, chegando a 11,3 milhões de toneladas. Ainda assim, será a segunda maior da história. O recuo está ligado à virada do ciclo pecuário e, sobretudo, às restrições impostas pela China, principal destino da carne bovina brasileira. O mercado chinês segue central, mas passou a adotar cotas e sobretaxas para volumes excedentes.

A consequência é clara: as exportações bovinas devem cair quase 4%. E o sinal político e econômico também é claro. Depender excessivamente de um só comprador deixa o Brasil vulnerável. A abertura de novos mercados precisa deixar de ser promessa recorrente e se tornar prioridade efetiva da política comercial brasileira.

Petróleo em alta no momento certo

Na energia, o Brasil também vive uma fase de forte valorização. As exportações de petróleo cresceram 31% no primeiro trimestre de 2026, alcançando US$ 12,5 bilhões. O desempenho ajudou a levar as exportações totais do País ao maior valor da história para os três primeiros meses do ano. Segundo a economista Julia Marasca, do Itaú, esse avanço decorre muito mais do aumento da produção do que de uma alta internacional dos preços. Em 2025, o Brasil produziu 3,77 milhões de barris por dia, o maior volume já registrado.

O problema é conhecido: como o País ainda tem capacidade limitada de refino, boa parte desse petróleo precisa ser exportada in natura. Ou seja, o Brasil produz mais, vende óleo cru e segue importando derivados e produtos de maior valor agregado. É o retrato exato de uma economia que ainda não conseguiu completar, dentro de casa, sua própria cadeia de riqueza.

Oportunidade que não pode escapar

A crise no Oriente Médio e os bloqueios no Estreito de Ormuz aumentaram o interesse asiático pelo petróleo brasileiro. A China praticamente dobrou suas compras. A Índia também ampliou fortemente a demanda. O mercado abriu uma janela concreta, e o Brasil passou a ser visto como fornecedor confiável num momento de tensão global.

É justamente aqui que o alerta de Sanderson ganha ainda mais sentido. Para ele, o Rio Grande do Sul, por vocação e tradição produtiva, pode e deve estar na linha de frente desse novo ciclo. Mas o raciocínio vale para o País inteiro. O momento, diz o deputado, é claro: ou o Brasil transforma essa vantagem em um projeto consistente de desenvolvimento, ou continuará sendo apenas um grande exportador de oportunidades.

Rico em produção, pobre em estratégia

O bom momento das carnes e do petróleo mostra que o Brasil tem capacidade para crescer, gerar empregos e ampliar sua presença internacional. Mas isso, por si só, não garante desenvolvimento. O País precisa investir em infraestrutura, ampliar o refino, fortalecer a petroquímica, consolidar a agroindústria, abrir mercados para a carne bovina e dar segurança a quem produz e investe.

A verdade incômoda é que o Brasil continua brilhando na produção, mas ainda devendo na estratégia. E essa talvez seja a crítica mais forte embutida no cenário atual. O País tem recursos, escala, competitividade e mercado. O que ainda falta é decisão política, planejamento e coragem para transformar potência exportadora em projeto nacional de desenvolvimento.

A Coluna Repórter Brasília é publicada simultaneamente no Jornal do Comercio, o jornal de economia e negócios do Rio Grande do Sul.

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