O direito de informar está encolhendo e o alerta é imediato

Por Edgar Lisboa
A fotografia mais recente da liberdade de imprensa no mundo não deixa margem para dúvida: estamos diante de um processo contínuo de deterioração democrática. Levantamento da Repórteres Sem Fronteiras revela que mais da metade dos países vive hoje sob “situação difícil” ou “muito grave” para o jornalismo, um cenário que não apenas preocupa, mas exige reação urgente.
E o dado mais simbólico talvez seja o mais duro: a liberdade de imprensa global atingiu o pior nível dos últimos 25 anos. Não se trata de um recuo pontual. É uma tendência.
O MUNDO CONTRA O JORNALISMO

Violência, política e economia sufocam a informação
A crise não tem uma única causa, ela é estrutural. A própria RSF aponta três vetores principais que, combinados, fragilizam o jornalismo:
- Violência direta contra jornalistas, sobretudo em regiões dominadas pelo crime organizado;
- Pressão política crescente, com governos usando leis e estruturas estatais para intimidar a imprensa;
- Colapso econômico do setor, que enfraquece redações e abre espaço para desinformação.
O resultado é devastador. Em 2002, cerca de 20% da população mundial vivia em países com boa liberdade de imprensa. Hoje, esse número despencou para apenas 1%.
A frase do relatório é contundente e não pode ser ignorada:
“O próprio jornalismo está morrendo, sufocado por retórica hostil e pressões institucionais.”
BRASIL: AVANÇO RELATIVO EM MEIO AO CAOS
Sobe no ranking, mas ainda longe do ideal
No meio desse cenário adverso, o Brasil aparece como uma exceção relativa. O país subiu para a 52ª posição entre 180 nações, ultrapassando pela primeira vez os Estados Unidos, que caíram para o 64º lugar.
A evolução brasileira é significativa:
- Em 2021, ocupava a 111ª posição, na chamada “zona vermelha”;
- Desde 2022, avançou 58 posições;
- Hoje está classificado como de “situação sensível”, ainda distante do patamar ideal.
Mas é preciso cautela. Melhorar no ranking não significa estabilidade. Significa, sobretudo, que outros países pioraram ainda mais.
Na América Latina, o alerta é claro:
- Cresce a violência contra jornalistas;
- O crime organizado passa a atuar como censor informal;
- A política amplia o discurso de ataque à imprensa.
O Brasil melhora — mas dentro de um continente que, em muitos pontos, retrocede.
ESTADOS UNIDOS EM QUEDA
Crise de confiança e pressão política
A queda dos Estados Unidos não é episódica. É o quarto recuo consecutivo no ranking.
Entre os fatores apontados:
- Desgaste econômico das empresas de mídia;
- Perda de confiança do público;
- Uso da máquina pública contra jornalistas, especialmente sob o governo de Donald Trump.
A Repórteres Sem Fronteiras vai além e classifica o momento como uma das crises mais graves da história moderna da imprensa norte-americana.
OS EXTREMOS DO MAPA
Democracias fortes resistem — regimes fechados sufocam
O ranking global escancara um padrão:
Melhores posições:
- Noruega (1º lugar)
- Países Baixos
- Estônia
- Dinamarca
- Suécia
São países com instituições sólidas, transparência e proteção efetiva ao jornalismo.
Piores posições:
- Eritreia
- Coreia do Norte
- China
- Irã
- Arábia Saudita
Nesses ambientes, informar não é apenas difícil, é perigoso.
UM ALERTA PARA AS DEMOCRACIAS
Sem imprensa livre, não há controle de poder
A erosão da liberdade de imprensa não acontece apenas em regimes autoritários. Ela avança, silenciosamente, dentro de democracias formais.
E aqui está o ponto central:
não existe democracia sólida sem imprensa livre, crítica e responsável.
Quando jornalistas são atacados, investigados de forma abusiva, desacreditados sistematicamente ou economicamente enfraquecidos, o que está em jogo não é apenas a profissão, é o direito do cidadão à informação.
RESPONSABILIDADE E RESISTÊNCIA
Informar com rigor é a resposta ao caos
Defender a liberdade de imprensa não significa defender excessos. Pelo contrário.
O momento exige:
- Mais rigor na apuração;
- Compromisso absoluto com a verdade;
- Responsabilidade editorial;
- Independência frente a governos, mercados e interesses organizados.
A resposta à crise não está no silêncio, mas na qualificação do jornalismo.
UM DIREITO EM RISCO REAL
O mundo precisa decidir se quer continuar informado
O retrato global é claro:
- A liberdade de imprensa está encolhendo;
- A violência e a pressão política avançam;
- O jornalismo enfrenta sua maior crise em décadas.
O Brasil melhora, mas ainda caminha em terreno instável.
O desafio, daqui para frente, não é apenas subir posições em rankings. É garantir que a liberdade de informar não se torne um privilégio raro em um mundo cada vez mais hostil à verdade.
Porque, no fim, a equação é simples:
sem imprensa livre, não há sociedade bem informada. E sem informação, não há democracia real.
Oriente Médio: cenário crítico
A região segue entre as piores do mundo. Líbano (115º) e Israel (116º) aparecem como os menos restritivos, enquanto Irã (177º) e Arábia Saudita (176º) figuram entre os piores ambientes para o jornalismo.
Deterioração da Liberdade de Imprensa
Para Guga Chacra, “houve uma deterioração clara no cenário da liberdade de imprensa aqui nos Estados Unidos neste segundo mandato. O primeiro também já ocorria, mas houve um agravamento muito claro nesse segundo mandato do Trump, ataques às jornalistas, que ele fazia no primeiro mandato, mas agora se intensificou, porque ele faz ameaças, por exemplo. Nessa semana mesmo, ele não gostou de uma piada que o Jimmy Kimmel, renomado comediante, escritor e apresentador de televisão americano, famoso por comandar o talk show noturno “Jimmy Kimmel Live!” na rede ABC, fez sobre ele e a mulher dele, ele disse que incitava ataques contra ele, que não é verdade, mas ele ameaçou tirar a licença da Rede TV ABC para operar nos Estados Unidos.
Donald Trump também fez ameaças à Rede TV CBS, que não autorizaria uma fusão envolvendo a Paramount, que é a proprietária da Rede TV CBS, e conseguiu inclusive levar a demissão do humorista Stephen Colbert, que é o humorista de maior audiência nos Estados Unidos, que é do estilo de Jim Kimmel, que também é”.
América Latina: contrastes e alerta
Ariel Palácios chama atenção para a deterioração acelerada na Argentina, que caiu para a 98ª posição, marcada por hostilidade institucional, restrições de acesso à Casa Rosada e ataques verbais e políticos do governo de Javier Milei à imprensa.
No contraste regional, o Brasil aparece em 52º, à frente dos EUA, enquanto o Uruguai (48º) mantém posição relativamente melhor e o Paraguai ocupa o 88º lugar.
Balanço dos Especialistas
O balanço dos especialistas é claro: há um ambiente global de pressão crescente sobre o jornalismo, com interferência política, hostilidade institucional e ataques diretos a profissionais. O fenômeno não é isolado, atinge democracias consolidadas e países em desenvolvimento, com impactos diretos sobre a qualidade da informação e o funcionamento democrático.
Assim como no ano passado, apenas sete países receberam a classificação de “boa situação” de liberdade de imprensa. O ranking é liderado pela Noruega, que manteve o primeiro lugar, seguida por Países Baixos, Estônia, Dinamarca e Suécia.
Por outro lado, guerras pioraram a situação em países em conflito, como Israel e Sudão, por causa da morte de jornalistas. Já a América Latina, mesmo sem estar em guerra, despencou no ranking por causa da violência contra profissionais de imprensa, principalmente por parte do crime organizado.
Enquanto isso, países autoritários ocupam as piores posições do ranking. A Eritreia recebeu novamente a pior pontuação, seguida por Coreia do Norte, China, Irã e Arábia Saudita.
Veja, abaixo, o ranking com os 20 melhores e os 20 piores países para a liberdade de imprensa, segundo o estudo da RSF:
20 melhores
Noruega
Países Baixos
Estônia
Dinamarca
Suécia
Finlândia
Irlanda
Suíça
Luxemburgo
Portugal
Tchéquia
Islândia
Liechtenstein
Alemanha
Lituânia
Bélgica
Letônia
Reino Unido
Áustria
Canadá
20 piores
Eritréia (180º)
Coreia do Norte (179º)
China (178º)
Irã (177º)
Arábia Saudita (176º)
Afeganistão (175º)
Vietnã (174º)
Turcomenistão (173º)
Rússia (172º)
Azerbaijão (171º)
Bahrein (170º)
Egito (169º)
Nicarágua (168º)
Djibuti (167º)
Birmânia (166º)
Belarus (165º)
Iêmen (164º)
Turquia (163º)
Iraque (162º)
Sudão (161º)
Outros destaques
França (25º)
Uruguai (48º)
Brasil (52º)
Itália (56º)
Japão (62º)
Chile (70º)
Paraguai (88º)
Argentina (98º)
Israel (116º)
Venezuela (159º)
Cuba (160º)
Conexão Digital Brasília/*Com informações do Portal Repórter Brasília, Edgar Lisboa







