O amor na filosofia de Erich Fromm: uma arte

Eliseu Pereira/Divulgação

*Por Eliseu Pereira

Antônio Abujamra costumava encerrar as entrevistas no Provocações com a pergunta: “O que é a vida?” Ante a resposta, qualquer que fosse, ele repetia: “O que é a vida?” Alguns entrevistados tentavam rever sua resposta, outros repetiam, gaguejavam e outros simplesmente desistiam de responder embaraçados. De fato, a vida pertence a uma classe de coisas para as quais não há resposta simples. Parafraseando Santo Agostinho, “se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicá-lo a quem me pede, já não sei”.

O amor também pertence a essa classe de coisas. Afinal, “o que é o amor?” Como explicá-lo? Por sua natureza, o amor desafia toda possibilidade de definição. Talvez por isso, seja tão difícil encontrar um tratado conclusivo sobre ele. A princípio, esperaríamos que o amor ocupasse lugar central na filosofia e nas ciências humanas, mas não é o que se observa. Há uma notável desproporção entre a importância do amor e produção acadêmica a seu respeito. Não quero dizer que os filósofos, os cientistas, os mestres não tenham tratado do amor. Quero dizer que, na maioria dos casos, para cada pergunta sobre o amor, haverá uma resposta diferente — como no programa do Abujamra. E a pergunta subsiste: “O que é o amor?” Resta-nos escolher uma das respostas possíveis e continuar perguntando.

Dentre as muitas respostas à questão do amor, detive-me no livro A arte de amar, de Erich Fromm, publicado em 1956. Fromm era alemão, judeu, ateu, psicanalista e marxista. Sofreu na pele a tragédia do nazismo e, do meio de seus dramas pessoais, falou sobre o amor como arte. Arte, não no sentido estético, obviamente, mas no sentido de técnica a ser aprendida: “Amar é uma arte, assim como viver é uma arte; se quisermos aprender como se ama, devemos proceder do mesmo modo por que agiríamos se quiséssemos aprender qualquer outra arte, seja a música, a pintura, a carpintaria, ou a arte da medicina ou da engenharia” (1995, p. 14). Como toda arte, o amor exige prática e dedicação.

Para Fromm, o amor não é uma “sensação agradável” ou um estado em que se cai. Não! O amor demanda disciplina, concentração e paciência. Segundo ele, a consideração equivocada do amor como sensação se apoia em três premissas: primeira, o foco em “ser amado” em vez de na capacidade de amar; segunda, a ideia de que o problema do amor é de “objeto” (encontrar a pessoa certa a ser amada) em vez de focar na faculdade de amar; e, terceira, a confusão entre estado inicial (cair de amor) e estado permanente (estar amando). A sociedade consumista reforça essas ilusões. Para Fromm, o primeiro passo para superar essas ideias equivocadas do amor é “tornar-se consciente de que o amor é uma arte” (p. 14).

O processo de aprendizado de qualquer arte (ofício) é dividido em duas partes: domínio da teoria e domínio da prática. Em A arte de amar, Erich Fromm dedica um longo capítulo à teoria do amor. Segundo ele, a necessidade mais profunda do ser humano é “superar sua separação, de deixar a prisão em que está só” (p. 19). Independentemente da época ou da cultura, o ser humano tem poucas alternativas para superar a solidão existencial, conforme demonstram as histórias da religião e da filosofia. Assim como a criança está ligada à sua mãe, assim também os seres humanos primitivos estavam ligados à natureza. E assim como a criança percebe sua solidão à medida que se desenvolve, assim a raça humana “emerge” da natureza e precisa encontrar meios de realizar sua união (id.).

Para transcender a separação e a solidão, o ser humano busca formas de realizar uniões, mas nem toda união é completa, ou seja, nem toda união se baseia no amor maduro. Na teoria do amor, Fromm aborda as diversas relações: amor fraterno, amor materno, amor erótico, amor próprio e amor a Deus, nessa ordem. O amor fraterno é extensivo em compaixão por toda a humanidade. O amor materno representa o amor incondicional capaz de promover a autonomia do filho como um ser maduro e autônomo. O amor erótico não se confunde com atração sexual. Por fim, o amor próprio não é o mesmo que egoísmo (narcisismo) ou abnegação. Egoísmo e abnegação não são amor, mas sua falta. Finalmente, o amor a Deus — o amor supremo — depende da cultura religiosa e da ideia de Deus.

Apresentada a teoria do amor, Fromm reserva um capítulo do livro para a prática do amor. Como em qualquer arte, o aprendizado requer disciplina, concentração, paciência e preocupação suprema. Especificamente em relação à arte de amar, além desses requisitos, é necessário superar o narcisismo, ter fé e ser ativo. Para superar o narcisismo, o caminho é desenvolver “a faculdade de ver pessoas e coisas tais como são, objetivamente, e a capacidade de separar esta imagem objetiva de uma imagem formada pelos desejos e temores que se tenham” (p. 141). É necessário usar a razão com humildade: “o amor […] requer o desenvolvimento da humildade, da objetividade e da razão. […] Humildade e objetividade são indivisíveis, como o é o amor” (p. 143). Quanto a ter fé, Fromm se refere a “fé” como traço de caráter, a “qualidade de certeza e firmeza que nossas convicções possuem”, uma “convicção” enraizada na “atividade intelectual e emocional”, na “convicção independente, baseada na própria observação produtiva e no pensamento, apesar da opinião da maioria” (p. 144s). Significa ter fé em si mesmo e nas pessoas — “fé na humanidade” (p. 148) — e ter coragem para assumir riscos. Quem tem medo de ser amado, na verdade, tem medo de amar. “Amar significa entregar-se sem garantia, dar-se completamente na esperança de que nosso amor produzirá amor na pessoa amada” (p. 151). Por fim, quanto a ser ativo, Fromm esclarece que não se trata de “fazer alguma coisa”, mas de “atividade interna”, ou seja, “o uso produtivo dos próprios poderes” (p. 152). É ter uma postura alerta, de quem está bem acordado, desperto, “ativo em pensamento, sentimento, olhos e ouvidos, o dia inteiro”, sem “ociosidade interior” (id.). A atividade não se divide: é produtiva em todas as áreas e no amor: “Se não se é produtivo em outras esferas, também não se é produtivo no amor” (id.).

Para amar, é necessário deixar de ser um autômato: “Para que o homem seja capaz de amar, deve ele ser colocado em seu lugar supremo” (p. 157). O ser humano deve ser fim em si mesmo e nunca um meio, como propôs Kant. O ideal é que a sociedade fosse organizada de modo tal que “a natureza social e amorosa do homem não se separe de sua existência social, mas se unifique com ela” (id.). Se, como propõe Fromm, o amor é a “única resposta sadia e satisfatória para o problema da existência humana”, então a sociedade não tem alternativa a não ser promover o “desenvolvimento do amor”, sob risco de se autodestruir “por sua própria contradição com as necessidade básicas da natureza humana” (id.). O amor é “a última e real necessidade de todo ser humano” (id.).

Ao concluir a leitura de A arte de amar, ocorreram-me um conforto e uma inquietação. É confortante pensar o amor como arte, porque dá esperança de crescer em aprendizado e prática. Mas é também inquietante, porque parece que a solidão humana é profunda demais para superar, especialmente quando todos estamos solitários. Como eu posso transformar minha solidão em amor? Talvez a teologia joanina nos ofereça alguma ajuda ao estabelecer o amor de Deus como ponto de partida: “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou. […] Nós o amamos porque ele nos amou primeiro” (1João 4.10, 19). Portanto, o amor não começa com o ser humano solitário amando a Deus ou ao próximo, mas começa com Deus amando o ser humano e rompendo sua solidão existencial — não apenas a individual, mas a de todo ser humano. A arte de amar ‘a’ Deus é consecutiva ao amor ‘de’ Deus. Primeiro, o ser humano é objeto do amor incondicional de Deus e, depois, ele é convidado a reagir como sujeito que ama a Deus, a si mesmo e à humanidade. Ao ser amado por Deus, o ser humano é liberto da solidão e, somente então, ele é habilitado a amar com autonomia e liberdade. O amor de Deus fornece o ponto de partida para o amor humano. Assim, o amor é uma arte que se aprende com o próprio Amor: “Deus é amor”.

Eliseu Pereira é mestre e doutor em Teologia, membro da Igreja Liberta em Curitiba/PR e produtor de conteúdo digital no canal Teologia Pé no Chão.